terça-feira, 3 de junho de 2014

Feministas precisam-se!

Estou a escrever este post sem saber bem por onde começar... Ando a pensar nele há dias, ontem pensei mesmo em escrever em papel para conseguir organizar as ideias, mas vai assim, de coração mesmo.
A blogosfera nacional explodiu, tudo porque surgiu um post algures que dizia para as feministas irem para não sei onde, e quem o escreveu era do género feminino. Acontece que há um ou dois pares de bloggers que são especialmente afectos a esta temática e que escreveram, nos seus espaços, textos a defenderem a posição. Daí até surgirem os argumentos ad hominem foi uma questão de horas. Mas adiante.
Intriga-me como é que, em 2014, a sociedade veja com maus olhos o papel das feministas. Não estou a falar de loucas radicais que, como li algures na timeline do Twitter, agora decidiram mutilar não sei como os seus órgãos sexuais. Falo sim de mulheres que lutam por algo tão simples quanto a igualdade, que, no passado, lutaram até conseguir direitos que hoje tomamos como garantidos (como o voto, ou o divórcio) e que, actualmente, enfrentam outro tipo de problemas, sendo um dos quais esta cultura de violação em que vivemos.
A cultura de violação está presente em muitas facetas do nosso dia-a-dia e basicamente consiste na ideia generalizada de que as mulheres são as culpadas por serem violadas. Porque estão a "pedi-las", porque o homem tem como "instinto básico" a propagação da espécie e não se consegue controlar quando vê um rabo de saias.
Porém, consegue ir além disto. A cultura da violação também são os piropos e as boquinhas que todas as mulheres têm de ouvir e aturar quando passam na rua. A cultura da violação está presente na pop culture do nosso quotidiano, ou acham normal que o Robin Thicke consiga interpretar um tema deste calibre e ainda ser considerado um "granda som"? Quem diz essa música, diz as 50 Sombras desta vida e similares. O importante a reter é que é propagada a ideia de que as mulheres são um objecto, de que o nosso corpo só serve para satisfazer os caprichos dos homens e, por isso, podem dizer o que quiserem quando passamos na rua.
Eu já tenho umas ideias um bocado radicais quanto a este assunto, portanto não me é fácil ler que determinado sujeito nos EUA matou seis jovens porque tinha 22 anos e, pasmem-se, era virgem. Claro que a culpa era das mulheres. E claro que o pobre moço tinha uma perturbação mental qualquer. Isto também me lembra um pertinente post que li no Tumblr, dizia que a sociedade ignora as perturbações mentais, até que seja necessário defender um homem branco de algo de errado que este fez. Aliado a isto, ainda li aquela peça do i sobre a miúda do Laranjeiro que foi vítima de bullying e assédio sexual pelo parte dos colegas da escola. E que estes estão em liberdade. E fico revoltada e enojada. O pior é que a rapariga que foi abusada ainda foi gozada. Por quem? Por outras raparigas. Mas em que mundo é que vivemos? Enfim, tendo em conta que uma das bloggers da polémica disse que se as mulheres não querem que se olhe para as mamas, não usem decote, fica mesmo a conclusão de que as mulheres são as mais machistas de sempre, e que continuam a contribuir para a propagação da cultura da violação.
Estou farta disto e de viver assim. Cansa as carrinhas de caixa aberta (são sempre as piores) travarem bruscamente para eu atravessar a estrada, apitarem e mandarem beijinhos; cansa passar na rua e ouvir "nóóóssa que gostosa"; cansa querer ir ao café ao fim da rua à noite e os meus pais dizerem para eu não voltar tarde, para não voltar sozinha, para ter cuidado. Estou cansada que me ensinem a vestir em vez de ensinarem os homens a não assediar.
Não sei o que mais dizer... Claro que a situação se agrava à medida que vamos para Oriente, para os países extremos, mas isso não deve de servir para desvalorizar os problemas que todas as mulheres sofrem: europeias, orientais, portuguesas, brasileiras, afegãs, americanas, pretas, brancas, baixas, gordas, magras.
Vou deixar aqui o link para um texto que também encontrei no Tumblr, que fala precisamente de que não são todos os homens (not all men), mas que não os suficientes para levar as mulheres a agir de determinada maneira.
Algumas das minhas bloggers preferidas que escrevem frequentemente sobre este tema:
A Leididi, do Blog do Desassossego
A Rita Maria, do Boas Intenções
(#YessAllWomen foi uma hashtag que surgiu como resposta à #NotAllMen e começa a tornar-se viral. Outro exemplo é o "Ninguém Merece Ser Esturpado", do Brasil.)

2 comentários:

  1. Eu estou aqui.
    Concordo e defendo todas as ideias deste post.
    "Estou cansada que me ensinem a vestir em vez de ensinarem os homens a não assediar." Isto é tão verdade.
    As mulheres continuam a propagar ideias machistas e ainda se acredita que "feminismo" é odiar homens em vez do que realmente é, defender os direitos das mulheres. Temos ainda um longo caminho a percorrer.

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